O que distingue o Homem dos outros seres é uma pergunta que todos acabamos por fazer. E não há só uma resposta certa. Tendo em conta a forma como nos sentimos, o nosso estado de espírito, damos respostas diferentes à mesma pergunta.
A dor emocional. Aquela que nos destroça dois ou três órgãos internos cada vez que vem. É uma das coisas que nos distinguem, sem dúvida.
Mas se calhar não é bem ela...
Será antes aquela capacidade de a superar, mas sem a superar verdadeiramente. Quero dizer, ela passa... Mas não passa mesmo.
Sentimos com uma agudeza incrível ao início. Tolda-nos a visão, a audição, o tacto... Tira-nos o apetite. Pensamos que não aguentamos e que nunca vai passar, que a vida acaba por ali e todos os dias que se seguirão serão assim ou piores.
Mas gradualmente o apetite volta. Recomeçamos a ter noção do que é que acabamos de pisar na rua, já reconhecemos caras outra vez. E ocasionalmente lá vem mais um rasgo num dos tais órgãos destroçados de que falei à pouco, mas desta vez é mais rápido.
E ao fim de nos acontecer uma mão cheia de vezes, apercebemo-nos que vai sempre passar. Qualquer dor semelhante que surja, vai passar também. Ganhamos ritmos e rotinas para estas alturas, e limitamo-nos a aceitar a dor, porque sabemos que ao fim de 3 semanas, 1 mês e meio, 2 meses, ela vai estar muito mais branda e que já conseguimos retomar a nossa vida. Com as pontadas do costume, claro. Essas acompanham-nos sempre.
O problema, é que ao mesmo tempo que ganhamos esta consciência (usualmente nasce por volta dos 23 ou 24 anos, juntamente com alguns calos e uma certa protuberância causada por cerveja mesmo abaixo do peito), de que a dor é apenas uma visita que deixa o shampoo em nossa casa, e que este lá fica parado e intocado até ela voltar, ao mesmo tempo que isto acontece... Perde-se alguma magia.
Fazemos uma analogia de situações, identificamos os desfechos possíveis, e já não há tanta componente de risco. Passamos a reconhecer os sinais da forma como as coisas se vão passar, antecipamos cenários e planeamos fugas destes...
Se por um lado começamos a superar muito melhor as coisas (let'em come!), por outro a vida torna-se um pouco mais enfadonha...